SEXO E SAÚDE: A IMPORTÂNCIA DO SEXO NO RELACIONAMENTO A DOIS

Atualizado: Ago 11

Há algumas décadas, existiam alguns pressupostos para que o casamento desse certo, os homens tinham que ser considerados bons trabalhadores e as mulheres boas donas-de-casa, pouco se falava em compatibilidade sexual. A partir dos anos 70 se tornaram frequentes debates sobre sexo, amor e relacionamentos, e com as diversas mudanças começaram a surgir inquietações sobre relacionamentos infelizes e dificuldades na vida sexual do casal, se dando conta que podiam ser mais felizes.

Após os anos 70, o sexo ganhou uma nova dimensão, ocupando um papel maior para a estabilidade na vida a dois, e esta importância deixou de ser apenas de um lado, ou seja, ambos os integrantes de um relacionamento começaram a direcionar a sua atenção sobre o assunto.

Por mais que a direção do papel sexual se intensificou para diversas culturas, ele sempre teve alguma importância para a maioria dos casais, pois a procriação bem-sucedida também faz parte da atividade sexual. Durante décadas, em diversas culturas, o sexo era direcionado apenas para a procriação, pouco se falava em prazer, embora existiam culturas, como o islamismo, que associavam o ato sexual com o prazer.

Com o passar do tempo, frases que relacionam o quanto os casais estão cada vez mais em crise foi se tornando comum escutar, assim como presenciar o término de um relacionamento. Estão cada vez mais transitórios, menos duráveis. E um dos vilões é a incompatibilidade sexual.

Na incompatibilidade sexual estão diversos itens, como por exemplo, o que cada um gosta nas preliminares, posições sexuais, fantasias, intensidade do desejo, frequência sexual, entre outras, e a que mais se destaca é a importância que os dois designam para o sexo.

Se analisarmos o comportamento sexual dos seres humanos, todos possuímos as nossas particularidades, ou seja, somos seres individuais nas formas de gostar e manifestar. Cada um constrói a sua sexualidade, os seus conceitos, valores e dão uma importância ao sexo diferente uns dos outros. Esta importância sexual poderá interferir significativamente em como o casal vivenciará o sexo, pois diminuirá o desejo caso a importância for pequena ou nula, a frequência sexual altera e os conflitos podem começar a aparecer.

Quando essa falta de sintonia se apresenta, o casal não precisa interromper o relacionamento. Tudo irá depender de como os dois vivenciarão estas diferenças. Com diálogo, compreensão sobre o outro e determinação, é possível reverter o incomodo do que está incompatível. Muitos casais procuram a psicoterapia para compreender as necessidades de cada um, e qual o melhor caminho a seguirem. Os dois precisam estar engajados neste processo de mudança, senão será muito difícil ela acontecer, e ao invés de se tornarem mais compatíveis, muitos prejuízos podem aparecer na vida deste casal.

Cada pessoa dará uma importância para o sexo em sua vida. Esta importância é construída em decorrência da história de cada um, como também do contexto em que está transitando. Questões sócio-histórica-culturais possuem uma interferência muito grande nessa construção. Como por exemplo a educação dirigida às meninas são muitas vezes diferentes da educação dos meninos. Os meninos aprendem desde pequenos a manipular seu órgão sexual, a vê-lo com maior clareza (já que é mais exposto do que o órgão sexual das mulheres), não são tão repreendidos como as meninas quando começam a estimular os seus genitais e desde pequenos podem escutar que será o “garanhão do papai”. Ao contrário, as meninas muitas vezes são ensinadas com um padrão mais conservador de atitudes sexuais, aprendendo que não pode expressar seus desejos por ser “sujo”, errado, e em muitas situações são repreendidas e julgadas. Já presenciei diversos pais com facilidade em explicar para o menino quando ele pergunta como ele foi gerado, e quando a menina questiona seus cuidadores, há um conflito enorme sobre o que responder.

Portanto, é nítido o quanto a educação sexual interfere nas diversas formas de vivenciar a sexualidade, refletindo na importância que dará ao sexo. Logicamente não podemos generalizar as situações. Não necessariamente todos os homens e todas as mulheres terão essa base de educação.

Histórias contadas sobre as dificuldades sexuais variam, mas a maioria gira em torno da frequência, como por exemplo, ele quer mais sexo que ela, ele precisa mais de sexo para se sentir íntimo, ela não entende as necessidades dele, ela precisa de mais demonstrações de carinhos, entre vários relatos se queixando sobre a quantidade da atividade sexual.

Muitas pessoas se questionam o por que o sexo é tão importante para o outro, e em alguns casos se perguntam se há algo de errado em não querer tanto sexo como a outra pessoa quer, gerando sentimento de frustração e podendo distanciar o casal. Alguns (essa pergunta é mais do gênero feminino) perguntam se realmente o sexo é importante dentro de um relacionamento para serem felizes.

Quando me fazem esta pergunta, costumo retorna-la para quem me fez e para o (a) parceiro (a): “o sexo é importante para você? ”.

Certa vez, um casal chegou em meu consultório me questionando dessa importância, onde os dois não tinham muito desejo sexual, mas como escutavam que todo casamento precisava ter sexo, estavam se sentindo mal com a situação em que se encontravam, com baixa frequência sexual. Quando questionados, não sentiam falta do sexo, podiam ficar dias sem praticar a atividade que não era um problema para eles, ou seja, os dois não davam importância. Outras questões do casamento eram muito bem desenvolvidas, como a comunicação, demonstrações de afeto, compreensão, toques e carícias sem necessitar da penetração. Deixando a vida sexual de lado, é um casal que se entrosam satisfatoriamente bem para os dois. Fomos percebendo que eles não queriam inserir o sexo no casamento, estavam bem da maneira que viviam. Por falarem para eles que o sexo é importante, gerou aí uma preocupação, mas para eles não é importante, e nem queriam que fosse, então, por que insistir nessa inserção se estão felizes dessa maneira? Por mais que a relação dos dois está mais para uma amizade, já que o sexo é um ato que diferencia uma amizade de uma relação afetiva, mas eles não estavam dispostos a vivenciar esta importância sexual.

O conflito se insere quando há uma discrepância entre o quanto cada um sente a importância do sexo, e como manifesta isso.

Como disse anteriormente, o sexo é o ato mais intenso que caracteriza como um casal, e não como simplesmente amigos. No sexo, o casal desenvolve um nível mais profundo de intimidade intensificando uma ligação afetiva. Estudos mostram que quando o casal vivencia uma vida sexual satisfatória para ambos, fortalece muito mais a segurança, pois se sentem mais felizes e autoconfiantes.

O prazer sexual interfere significativamente no estado emocional da pessoa e do casal. Quando acontece o sexo, porém, um sempre (ou quase sempre) está insatisfeito, ou quando um integrante não vê a frequência atual como satisfatória, podem gerar diversos conflito, como baixa autoestima, falta de autoconfiança refletindo na confiança com o outro, sentimento de frustração e repúdio, esquiva de situações que podem levar ao ato sexual e outros conflitos, não apenas para o relacionamento, mas para um geral na vida da pessoa, pois funcionará como um reflexo para os outros contextos em decorrência de cobranças deixando-as desconfortáveis, irritadas, tristes e outros sentimentos negativos. Os problemas do relacionamento também interferem em como a pessoa se sente no dia a dia, causando desmotivação para realizar suas atividades e compromissos cotidianos. Portanto, percebemos o quanto pessoas insatisfeitas e infelizes com a sua vida sexual e com o relacionamento, refletirá em outras dimensões e contextos da sua vida.

Refletindo sobre estas questões citadas acima, o sexo satisfatório não é apenas importante para o relacionamento (que falarei mais adiante), mas em primeiro lugar para cada indivíduo. Sexo satisfatório envolve o prazer. Não praticar a atividade apenas para proporcionar o prazer no outro, mas gostar, sentir prazer para si, com o seu corpo, com os seus movimentos, suas percepções, sensações e como acontece esse envolvimento com a outra pessoa, com o toque, as carícias, as diversas formas de expressar esse prazer e a interação desses dois corpos capazes de sentir e promover a intensidade desse contentamento de sensações.

Uma pessoa satisfeita com a sua sexualidade e sua vida sexual, poderá colher diversos frutos benéficos para si. Quando ela vivencia esta sexualidade de forma plena, conseguirá dar a devida importância para o sexo. Ao contrário, quando há um descontentamento, esta importância pode cair, gerando conflitos e confusões para a relação a dois.

Sexo requer toque, contato, troca de energia, beijo, sedução e tudo o que fazemos para que o sentimento seja prazeroso. Quando o casal sabe e consegue se entregar ao sexo sem culpa, sem mágoa e sem rancor, pode aliviar as preocupações, sensações desconfortáveis no corpo, equilibra as emoções, e ajuda o casal a desenvolverem uma conexão de intimidade e de confiança.

O individual reflete no relacionamento. Quando uma pessoa experimenta uma boa autoestima, se sentindo bem com o seu corpo, busca se conhecer, possui princípios e valores favoráveis para o seu desenvolvimento, tudo contribui em como essa pessoa se relaciona com a outra.

Muitas pessoas, em não saber administrar seus sentimentos com o outro, com mágoas, se fecham, e a vida sexual do casal começa a ficar em risco, pois algumas opções é a de que o sexo começa a não satisfazer mais, ou começa a faltar, e isto pode ser um reforçador para estes sentimentos negativos se tornarem mais presentes. As pessoas não podem se permitir vivenciar estas situações.

Acreditamos que é da natureza dos homens darem mais importância para o sexo do que as mulheres dão, como se fosse algo apenas biológico. Precisamos compreender que o sexo está mais presente na mente e menos nos órgãos sexuais, e a maioria das mulheres não querem pensar em sexo por algum motivo, seja pela sua carga histórica e como essa mulher construiu a sua sexualidade, por querer punir seu parceiro pelos problemas no relacionamento, conceitos entre amor e sexo, por acreditarem que não possuem tempo, que não podem pensar por ser errado e diversos conflitos entre o casal.

Juntamente com o quão é importante o ato sexual para o casal, precisamos dar importância também para a comunicação sobre o assunto. Esta comunicação se baseia em compartilhar com o outro questões íntimas, como por exemplo, através do autoconhecimento identificar o que gosta no sexo, onde gosta o toque, como é esse toque que mais agrada, posições, fantasias, e ambos atingirem um estado profundo de confiança para que consigam ser vulneráveis a pedir, dar e receber sexualmente sem gerar julgamentos e desentendimentos. Esta comunicação também é construída, ou seja, quanto mais nos comunicamos com o outro, mais fácil será o entrosamento do casal.

Falar sobre o assunto não é fácil, e caso existir dificuldades em expressar verbalmente suas insatisfações, esta comunicação inicial pode se dar através de uma expressão corporal, emitindo alguns sinais, seja com um olhar ou um gesto, principalmente quando o casal é mais sensível ao outro a qual consegue observar e identificar o que a outra pessoa está sinalizando. Mas além dessa forma de expressão, a comunicação verbal, seja de questões positivas ou negativas, faz parte nessa construção da intimidade do casal. Quando direcionamos um diálogo de questões negativas, é importante o casal buscar um momento adequado para esta conversa, com palavras que não sejam ofensivas ou com críticas, mas de uma forma tranquila, reforçando os pontos positivos no primeiro momento, pontuando o que está identificando como negativo e possíveis soluções para melhorar, a fim de estabelecer uma relação de maior intimidade e confiança.

É necessário ter uma compreensão que a importância que sentimos ao sexo varia também em decorrência do período em que estamos transitando. Por exemplo, com a chegada de um filho o sexo acaba ficando para trás, pois a atenção é direcionada a este filho, juntando o cansaço, a amamentação entre outros aspectos pós-parto, porém com paciência e muita conversa, isto deverá ir passando, e retornando esta importância que o casal dá para os momentos de intimidade. Tudo dependerá de como o casal, juntos, passarão por momentos como esses ou outros que podem afetar a vida sexual.

Geramos uma expectativa inicial que precisamos ter sempre o mesmo desejo sexual, onde naquela fase da paixão, com diversos estímulos reforçadores e que era muito fácil ter vontade de sexo, e ao longo desse relacionamento em que os estímulos iniciais já não existem mais, o sexo vai parecendo perder a importância. Na verdade, é a própria pessoa que não vai prestando atenção que o grau da importância diminuiu, e que o sexo não é mais essencial, começa a ter outras prioridades e se desvincula de possíveis sensações que podiam ser prazerosas e começam a se tornar um problema, ou seja, começam a pensar em sexo como um problema, e não como algo bom.

Como passamos por diversas fases em nossa vida, e juntamente com ela a nossa sexualidade também é vivenciada de formas diferentes, interferindo na importância que estamos dando para a atividade sexual para determinado momento, o melhor caminho é o casal prestar atenção na vida sexual, seja na frequência ou na qualidade. E voltando ao assunto da comunicação, ela vai ser essencial para identificar se alguma coisa aconteceu para modificar e diminuir, e o que o casal, juntos, podem fazer para melhorar essa satisfação.

Diversas pesquisas realizadas sobre a satisfação sexual do casal pontuam que muitas pessoas colocam erroneamente a importância na quantidade, na frequência. Porém, estudos mostram que a satisfação do prazer advém da qualidade, e o que intensifica a importância ao sexo é a forma como cada pessoa torna a sua sexualidade presente, e a ligação com o (a) parceiro (a), podendo ser até em outros contextos na vida do casal que não sejam apenas sexuais.

O sexo precisa ser vivenciado e sentido como uma forma de prazer, não de compromisso ou obrigação. Ele é importante, mas quando esta importância carrega o peso da obrigação se torna desgastante e causa sofrimentos.

O casal precisa aprender a conversar sobre o assunto, ao invés de ficarem discutindo sobre sexo e criando desentendimentos. Quando identificado a real necessidade de ambos, o que querem, sentem e precisam, se possibilitam construir uma ligação segura, reconhecendo, portanto, a importância que o ato sexual pode ter dentro do relacionamento.

A qualidade é algo subjetivo, não existe um padrão para tornar bom ou não o sexo. Cabe ao casal, juntos, identificar e encontrar maneiras de unir a informação que cada um traz consigo, adaptando a forma que o casal irá expressar seus desejos para obter prazer.

Quando a atividade sexual está presente de forma satisfatória, pode promover muitos benefícios para a vida do indivíduo, como aumentar sensações de prazer, bem-estar, aumenta a autoestima, dá motivação para questões do trabalho, favorece a confiança, proporciona alegria e felicidade, pode amenizar dores no corpo (que muitas vezes são causas emocionais), entre outras consequências, que refletem em como este indivíduo se relacionará com outras pessoas, inclusive com o (a) parceiro (a).


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